06 Julho, 2009

Oh, tempora, oh mores! O Discurso


"Até quando, ó, Catilina, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda há de zombar de nós essa tua conduta? A que extremos se há de precipitar a tua audácia sem freios? Nem a guarda do palatino, nem a ronda noturna da cidade, nem os temores do povo, nem a afluência de todos os homens de bem, nem este local, tão bem protegido para a reunião do Senado, nem o olhar e o aspecto desses Senadores, nada disso conseguiu perturbar-te? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos? Não vês que a tua conspiração todos aqui a conhecem? Quem dentre nós, pensas tu, que ignora o que fizeste na noite passada e na precedente, em que local estiveste, a quem convocaste, que deliberações foram as tuas? Oh tempos, oh costumes!"

Marcus Tullius Cícero, advogado, orador e cônsul romano, em discurso no Senado em 63 a C.

Ah, a casa dos grandes discursos! Ah, a retórica elegante e contundente contra a desfaçatez e o cinismo. Ah, como é bom ouvir um senador chamando as coisas pelo nome.

Jarbas Vanconcelos, senador pelo, pasmem!, PMDB, nesta tarde de segunda-feira, fez um discurso, mais um, digno de um Cícero. Não sei quantos senadores ouviram as palavras do senador pernambucano, mas inegavelmente foi o mais poderoso e irreplicável discurso de um senador nos últimos anos.

Leiam e ouçam, meus caros. Leiam e ouçam! Imprimam, reproduzam, colem na parede, guardem numa pasta, mostrem às futuras gerações que num tempo onde o senado estava debaixo de uma lama fétida, havia homens como o senador pernambucano que se recusou a coadunar com a canalhice da maioria dos senadores e do presidente Lula.

Ouça o discurso de Jarbas.




Abaixo, extraído do blog do Jamildo, do JC, a íntegra do discurso de Jarbas.

Nosso presidente não tem pudor algum, diz Jarbas em discurso

POSTADO ÀS 18:45 EM 06 DE Julho DE 2009

“A crise do Senado é gravíssima, seu desfecho é imprevisível, tudo pode acontecer”.

Estas palavras iniciais, Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Senadores, não são minhas, fazem parte da nova cantilena adotada pelo Presidente Lula para, mais uma vez, distorcer a verdade em benefício próprio. Com esse discurso assustador, Sua Excelência procurou intimidar os Senadores do PT, que cometeram o sacrilégio de insurgirem-se contra o roteiro que havia estabelecido para o período eleitoral que se avizinha.

Como que ungido por uma força sobrenatural, o Presidente planejou em detalhes todos os eventos políticos para os próximos meses, para que, ao final, eleja como sucessora na Presidência a sua candidata, a ministra Dilma, de preferência de forma consagradora, não para ela, mas para si próprio.*

Entre esses eventos que fazem parte do futuro idealizado por Lula, consta, em destaque, o apoio do PMDB. Interessa a Sua Excelência o tempo de televisão, a grande estrutura partidária e o apoio congressual em um futuro governo. Para atingir esse objetivo, Lula está disposto a tudo.

E me refiro a esse tudo em sentido amplo, não importa ao Presidente respeito às leis ou à Constituição, muito menos consideração a quaisquer princípios éticos ou morais. Nosso Presidente não tem pudor algum; tudo fará para permanecer no poder, inclusive comprometer seus correligionários e destruir o que ainda resta de dignidade no Congresso Nacional, especialmente no Senado Federal. Não tem compromisso com nada e com ninguém, a não ser consigo mesmo. Deslumbrado pelo poder, e pelos índices de aprovação de seu governo, considera-se acima das instituições.

Partindo dessa análise megalomaníaca, na última semana, decidiu resolver a crise que se abate sobre esta Casa. Uma ingerência sem limites, vista anteriormente apenas durante a ditadura militar. Interveio para impor a permanência do Presidente Sarney. Constrangendo e ameaçando seus próprios partidários, decidiu que, contra todos os fatos, irá impor sua vontade imperial, sustentando um Presidente do Senado que não tem apoio interno para permanecer no cargo, um presidente que se transformou em uma rara unanimidade negativa frente à opinião pública. Ainda assim, como intuiu que o afastamento pode frustrar seu projeto, vai impor ao Senado e ao Brasil a permanência de Sarney.

Lula tem razão quando diz que a crise do Senado é gravíssima, mas distorce a realidade ao afirmar que o desfecho é imprevisível. A solução natural para que iniciemos uma completa reforma desta Casa é o afastamento do Presidente Sarney. O momento posterior a esse fato é inteiramente previsível. O Vice-Presidente do Senado, Senador Marcone Perilo, irá convocar nova eleição. O PMDB irá indicar, entre os membros da sua bancada, aquele que melhor represente a continuidade do projeto de poder do Presidente da República e da parcela do PMDB que dá sustentação ao governo no Senado. E esse candidato será eleito - ou alguém aqui duvida da capacidade de convencimento do onipresente Senador Renan Calheiros.

Eis aí o desfecho para esta crise. Tudo ocorrerá na mais tranquila ordem.

A imprevisibilidade aludida pelo Presidente Lula não diz respeito ao Senado da República, mas sim ao seu projeto pessoal de continuidade no poder. Sua Excelência teme perder o domínio sobre a bancada do PMDB no Senado - ameaça que, de forma sutil, foi levada por seus interlocutores.*

Este é o quadro: um Presidente da República que pensa única e exclusivamente em si mesmo e que subjugou, de maneira vexatória, seus companheiros, os Senadores do PT, que, majoritariamente, decidiram pelo afastamento do Presidente Sarney e tiveram de voltar atrás, e, finalmente, o PMDB - ou aquilo em que se transformou o partido de Ulysses Guimarães – mais preocupado em manter privilégios que enfrentar os reais problemas de nosso país. Hoje, o Senado, instituição centenária, é submetido aos ditames desses grupos.

O que podemos fazer?

1) Chamar à razão o Presidente Sarney - que, de maneira recorrente, valoriza sua biografia, sua condição de estadista - e fazê-lo ver que está destruindo a si mesmo e a esta Casa.

2) Persuadir os Senadores do PT – ou pelo menos os que ainda guardam alguma identidade com os princípios éticos que defendiam num passado recente – a reafirmar a decisão da bancada pelo afastamento do Presidente.

3) Quanto à bancada do PMDB, não tenho ilusões; não há apelo que suplante os interesses individuais dos nossos Senadores.

Tenho horror a exercer o papel de paradigma da moralidade; não me agrada quando tentam impingir a mim essa função. Não sou diferente de ninguém e tenho como princípio não julgar quem quer que seja. Mas a atual crise impõe uma tomada de posição, e a minha é estar ao lado daqueles que defendem o afastamento imediato do Presidente desta Casa, para que possamos voltar a desempenhar o papel institucional para o qual fomos eleitos.

Não vai aqui qualquer questão pessoal em relação ao Presidente Sarney. Ressalto esse ponto, pois a cultura que se criou nesta Casa a partir do episódio que envolveu o Senador Renan Calheiros é de que críticas de cunho político são invariavelmente transferidas para o campo pessoal.

Qualquer reforma administrativa no Senado só poderá ser realizada se tiver o mínimo de apoio da opinião pública, e essa condição só será atingida a partir do afastamento do Presidente Sarney. Sua Excelência infelizmente personifica para boa parte da mídia todas as distorções que ocorreram nos últimos 15 anos.

O Senado vai mudar, vai mudar porque essa mudança é uma exigência da sociedade, vai mudar porque esse é o desejo da maioria dos Senadores, vai mudar pelas mãos dos inúmeros servidores desta Casa que querem vê-la valorizada e respeitada. Infelizmente, essa mudança, que ocorreria cedo ou tarde, de maneira natural, será concretizada agora, em meio a uma crise. Mas ela é inexorável, pois é a sociedade que está mudando.

O Presidente Lula está na contramão da sociedade. Seus altos índices de aprovação devem-se aos inegáveis avanços sociais e econômicos que o Brasil alcançou nos últimos 15 anos a partir do Plano Real, quando vencemos, definitiva e competentemente, a inflação. O Presidente confunde seu governo com sua pessoa. Presunçoso, acha que sua popularidade lhe dá o direito de julgar condutas: absolveu os mensaleiros e os companheiros criminosos que forjaram dossiês eleitorais. Entende que todos aqueles que contribuem para o seu objetivo de poder estão acima da lei.*

A sociedade a tudo assiste, inconformada em ver valores tão caros a ela, como a ética e honestidade, serem repetidamente desconsiderados por seu Presidente. Lula precisa saber que para tudo há um limite, os segmentos sociais mais independentes já começam a discernir o que é bravata e o que é dissimulação.É hora de refluir, de rever condutas. Não é mais possível aceitarmos esse patrimonialismo antiquado, esse fisiologismo que, de tão incentivado, convive amistosamente com a corrupção. Precisamos dar um basta a isso tudo, a começar pela cobrança de uma nova postura do Presidente da República, o verdadeiro responsável pelo lamentável nível da atual composição do Congresso Nacional.*

Ao enquadrar a bancada do PT no Senado e interferir de maneira despudorada em outro Poder da República, Lula encerra de vez o sonho daqueles que o elegeram acreditando em um País mais justo. A estrela vermelha ruma para o ocaso pelas mãos de seu próprio Líder. É o epílogo do último partido ideológico e programaticamente definido. Que descanse em paz.

Era o que eu tinha a dizer.”

04 Julho, 2009

A saga dos cotistas? Pois é.

Há, no Correio Web, um site dedicado à educação. Chama-se Eu Estudante. Ontem, foi publicada uma matéria sobre os primeiros alunos cotistas da Unb. A jornalista Camila de Magalhães deu à matéria um título curioso: A saga dos cotistas. Em qual sentido ela aplicou o termo saga? No sentido de lendas escandinavas? No sentido de tradições históricas de um povo? Não. Provavelmente na acepção de uma narrativa ficcional ou talvez numa narrativa cheia de incidentes. Não importa. O que importa é que ou Camila de Magalhães não sabe o que significa o termo saga ou força a barra para qualificar de saga a história dos primeiros alunos cotistas da Unb.

Reproduzo a matéria abaixo e faço um vermelho e azul com ela.

Segundo a secretaria de atendimento ao aluno, hoje a UnB conta com 2.657 alunos cotistas. A primeira entrada ocorreu no primeiro semestre de 2004, quando ingressaram 442 negros e pardos. No primeiro semestre de 2005, foram mais 137. Os cotistas têm direito a 20% das vagas de todos os cursos da universidade.

Há um dado importante nesse parágrafo. De 2004 para 2005, o número de aprovados pelo sistema de cotas diminuiu de 442 para 137. Por quê? E no último vestibular quantos devem ter sido aprovados pelo sistema de cotas? A verdade é que o aluno cotista carrega um estigma que nada tem a ver com a cor de sua pele. O estigma da incompetência, da vitória sem méritos. Talvez por isso tanta gente ande empenhada a dar aos cotistas um orgulho que ao que parece eles não sentem.

Dos que entraram no primeiro semestre de 2004, 191 cotistas estão regulares, cursando diferentes faculdades. Até o final de junho, 179 estudantes das turmas de 2004 e 2005 já haviam se formado.

Os números mais uma vez são reveladores. Dos 442 que entraram em 2004, apenas 191 estão regulares. Pouco mais de 40 % dos aprovados pelo sistema de cotas. Na hora de dar o número de cotistas que estariam formados no final de junho, a jornalista precisou somar os que entraram em 2004 e 2005, o que dá, segundo ela, 179 alunos.

O próprio Movimento Negro junto com algumas repartições da Unb, reconhecem que muitos alunos cotistas enfrentam dificuldades para continuar no curso, por isso já solicitaram e conseguiram ajuda institucional da universidade para subsidiá-los. Eu sou contra a ajuda? Eu não! Mas deveria ser para todos que precisassem e não apenas para os cotistas, não acham?



Ângelo Roger de França formou-se em serviço social. Ingressou no primeiro vestibular do sistema de cotas. Estudou todo o ensino médio e fundamental em escolas públicas. Para ele, ser cotista era um motivo de orgulho, apesar das opiniões contrárias.

De acordo com o assistente social, o racismo está instalado na UnB. "Você começa a perceber as sutilezas", conta Ângelo. "Os professores não estavam dispostos a falar sobre o sistema de cotas porque muitos não concordam". Outra questão eram as pichações nos banheiros, diz. Mensagens como "Cotas hoje, marginais com PHD amanhã" e "Morte aos cotistas" eram um insulto para Ângelo. O jovem lembra que a discriminação era mais implícita, não por xingamentos. No início, ele não ficava magoado, mas depois, sim.


Mas o rapaz conseguiu dar a volta por cima. Terminou o curso com notas excelentes e já passou em três concursos públicos. Um deles para analista do Tribunal de Justiça do DF e Territórios, na área de serviço social.

Se o estudante de serviço social é um dos melhores alunos – não duvido disso! A ponto de ser aprovado em três concursos públicos que sempre têm um nível de concorrência bem maior do que o da Unb ou de qualquer universidade pública, fica provado que ele tinha méritos para passar em Serviço Social, não acham? Então, para que cotas?

Segundo a matéria de Camila de Magalhães, Ângelo não é apenas um bom aluno é também um militante da causa. Segundo ela, o aluno diz que o racismo está instalado na Unb, mas é disfarçado, escondido. Só eles e outros militantes, ao que parece, é que vêem o tal do racismo na Unb. Ora, o aluno não poderia citar um exemplo desse racismo instalado na Unb? Claro que podia. E ele dá: "Você começa a perceber as sutilezas (...). Os professores não estavam dispostos a falar sobre o sistema de cotas porque muitos não concordam.” Viram as sutilezas do racismo? Não! Oh, seus racistas! Os professores que não falam do sistema porque não concordam com ele só podem ser racistas sutis, não? Ou você apóia o que eles pensam ou se transforma num racista sutil, percebem?

Mas Ângelo está disposto a oferecer mais provas do racismo instalado na Unb. E, claro, ele apresenta uma prova irrefutável desse racismo: inscrições nas portas dos banheiros da universidade. Diz o assistente social: “outra questão eram as pichações nos banheiros. Mensagens como "Cotas hoje, marginais com PHD amanhã" e "Morte aos cotistas."

Esses insultos e essas ameaças não podem, sinto vergonha de ter que explicar isso, comprovar que o racismo está instalado na Unb. Nessas portas se escreve toda sorte de asneiras. De convites obscenos a versos de péssimo gosto. E além do mais, vejam o detalhe, o insulto é contra o sistema de cotas, não contra os negros. “Ora, Zé Paulo, deixe de ser cínico”, diria um interlocutor exaltado. “É claro, continuaria ele, que é contra os negros, afinal quem são os cotistas?” Calma, meu amigo nervoso! Antes deixe eu lhe dizer que esses insultos não existiriam se o mérito continuasse sendo o único critério de ingresso na universidade. Além do mais, se o racismo estivesse instalado na Unb, por que nessas mesmas portas de banheiro, ou nas paredes dos corredores ou em qualquer outra dependência da universidade não aparecem inscrições insultando ou ameaçando os alunos porque são negros? Insisto: O exemplo dado pelo assistente social é antes uma manifestação - burra, infantil, idiota - contra o sistema de cotas para negros do que contra os alunos de pele preta.

Para a estudante do 9º semestre de pedagogia Juliana Cristina Siqueira, 24 anos, o sistema de cotas é uma forma de reparar os danos sofridos pelos negros até hoje. "Há muito racismo institucional no Brasil", lamenta. Quando terminar a faculdade, no fim do ano, Cristina pretende lutar por um mestrado na área de gestão educacional e diversidade étnico-cultural.

Confesso que me impressiona o curso dos cotistas citados na matéria. Não considero Serviço Social, Artes Visuais ou Cênicas, Pedagogia ou Licenciatura - mesmo em Letras em japonês, cursos de pouca importância. Mas é inegável que nesses cursos a concorrência é bem baixa. Ser aprovado nesses cursos pelo sistema de cotas é um pouco vexatório.

A estudante de pedagogia do nono semestre – quantos semestres têm o curso de pedagogia na Unb? – afirma que “há muito racismo institucional no Brasil.” O que isso quer dizer? Não sei. Talvez que as instituições no Brasil sejam racistas. Será que é por isso que só tem um negro como ministro do STF?

Os estudantes citados precisam reforçar a tese de racismo mesmo sem apresentar uma prova porque do contrário o sistema pelo qual eles foram aprovados se desmoraliza.

Juliana acha justo o sistema de cotas porque é uma chance de reparar os "danos sofridos pelos negros até hoje." Esse discurso vitimista me causa náusea. É desonroso. É coisa de gente medíocre e sem altivez.

Devs Oliveira, 26 anos, diz que uma das coisas mais difíceis quando entrou na UnB era assumir a condição de cotista. "As pessoas viam como uma facilidade de acesso à universidade, mas não é verdade, o ponto de corte é o mesmo".

Depois que percebeu que não havia necessidade, passou a aceitar e, hoje no 10º semestre, é um dos mais respeitados no curso, pelo mérito como pesquisador. Devs quer fazer mestrado e ser diretor de teatro.

Devs é estudante de artes cênicas e confessa que sentia vergonha de ser cotista. E por que a vergonha? Ora, porque ele achava que os cotistas entravam com mais facilidade na Unb do que os não-cotistas. E não entram? É. Entram. Só que disseram para Devs que o ponto de corte é o mesmo, aí ele se sentiu grande e importante, capaz de ombrear com os demais colegas universitários.

Vergonha eu sentiria era de entrar em artes cênicas pelo sistem de cotas, mas aí é problema meu. Agora, que o sistema de cotas facilita o ingresso do candidato cotista é lógico. Se não facilitasse, de que serviria as cotas? Se não facilitasse, por que candidatos cotistas com notas menores são aprovados e outros candidatos não-cotistas, mesmo com notas bem superiores ficaram de fora da Unb? Devs, meu caro, você deve ficar é duplamente envergonhado.


No 7º semestre de ciências políticas e ex-aluno de geografia, Gustavo dos Santos Cantuária também foi vítima de preconceito. "Na geografia, eu não era muito acolhido", lembra. E agora, em ciências políticas, ele conta que foi melhor acolhido, porém por um grupo pequeno. "O curso é ainda muito conservador e não há professores negros", observa. Gustavo pretende emendar a graduação com um mestrado .

Finalmente, um intelectual nessa matéria! Gustavo que cursou geografia, mas que mudou para Ciência Política, vê racismo na Unb porque não se sentiu acolhido pelos colegas de curso. O que ele queria? Festa? Pedido de desculpas por anos e anos de opressão branca? Sei lá. Decidiu mudar de curso e, conta o estudante, foi mais bem recebido na ciência política, embora não muito mais.

O que Gustavo Santos acha de seu novo curso? "O curso é ainda muito conservador e não há professores negros." O que seria um curso conservador? O que não tem professores negros? Então, um curso progressista seria aquele que tivesse professores negros, é isso? O pensamento desse aluno é um primor de rigor intelectual. É de cientistas sociais desse naipe que estamos precisando.

Para as pessoas entenderem a necessidade da política de cotas, destaca o rapper brasiliense Gog, é preciso ter uma vivência histórica da escravidão, como ela foi abolida e os indicadores sociais que estão aí. "O sistema de cotas é uma oportunidade de ensino. Os negros têm que entrar de cabeça erguida, não precisa ter vergonha".

Falaram, pela pena da jornalista, um assistente social, uma pedagoga, um artista, um cientista político, mas quem deve nos explicar a necessidade da política de cotas é um rapper. Este sim é uma autoridade no assunto. Ele que nunca ouviu falar de Gilberto Freyre, afirma com convicção que é preciso ter vivência histórica da escravidão para se entender a política de cotas. Vivência histórica? Meu Deus! O cara surtou? O que andou tomando ou fumando? A escravidão, Pedro Bó, acabou há 121 anos, meu rapaz! Como alguém poderia ter vivência histórica dela?

Os indicadores sociais, então, justificam as cotas para negros, é isso? E só existe pobre de pele preta? Não existe branco? A maioria é formada por negros dizem as estatísticas. E daí? É justo penalizar um branco pobre que, assim como um negro pobre, não teve as mesmas chances por causa de estatísticas?

Os negros nunca precisaram sentir vergonha de chegar à universidade quando o mérito era o critério de ingresso. Muitos colegas negros que tive na UFPE avançaram na academia e são excelentes profissionais e nunca tiveram de apelar para esses sistemas de facilidades. Nunca baixaram a cabeça. Se hoje uma matéria como essa tenta mostrar para os alunos cotistas da Unb que não há motivos para sentir vergonha do sistema de cotas, é porque motivos não faltam!


Ainda há leis em Honduras!

Deu em O Estado de S. Paulo

Golpe em Honduras? Que golpe?

De Octavio Sánchez*:

Às vezes, o mundo todo prefere uma mentira à verdade. A Casa Branca, a ONU, a Organização dos Estados Americanos (OEA), e grande parte da mídia condenaram a deposição do presidente hondurenho Manuel Zelaya, no domingo, como um golpe de Estado.

Isso é um absurdo. Na realidade, o que aconteceu aqui é simplesmente o triunfo da lei.

Para compreender os acontecimentos recentes, é preciso conhecer um pouco a história constitucional de Honduras. Em 1982, meu país adotou uma nova Constituição que permitiu nosso retorno à democracia após anos de governo militar. Depois de mais de uma dezena de Constituições anteriores, a atual, em vigor há 27 anos, é a que mais está resistindo.

E resiste porque responde e se adapta à mudança das condições políticas. Dos seus 379 artigos originais, 7 foram completa ou parcialmente revogados, 18 foram interpretados e 121 modificados.

Ela inclui também sete artigos que não podem ser revogados ou emendados, pois tratam de questões cruciais para nós. Os artigos que não podem ser alterados incluem a forma de governo, a extensão de nossas fronteiras, a duração do mandato presidencial, duas proibições - uma com relação à reeleição dos presidentes, a outra referente à elegibilidade para a função presidencial -, e um artigo que pune a tentativa de alterar a Constituição.

Nestes 27 anos, Honduras resolveu seus problemas ao amparo da lei.

Todos os países democráticos bem-sucedidos viveram períodos semelhantes de tentativa e erro até elaborar arcabouços jurídicos que se adaptassem à sua realidade. A França redigiu mais de dez constituições entre 1789 e a adoção da atual, em 1958. A Constituição americana foi emendada 27 vezes, desde 1789.

Segundo nossa Constituição, o que aconteceu em Honduras no domingo? Os soldados prenderam e mandaram para fora do país um cidadão hondurenho que, no dia anterior, por seus próprios atos perdera a presidência.

Estes são os fatos: no dia 26, o presidente Zelaya emitiu um decreto ordenando que todos os funcionários públicos participassem da "pesquisa de opinião sobre a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte".

Ao fazer isto, Zelaya desencadeou um dispositivo constitucional que automaticamente o tirou do cargo.

As assembleias constitucionais são convocadas para a redação de novas constituições. Quando Zelaya publicou o decreto para dar início a uma pesquisa de opinião sobre a possibilidade de convocar uma assembleia nacional, infringiu os artigos da Constituição que não são passíveis de alteração, relativos à proibição da reeleição de um presidente e à prorrogação de seu mandato. Seus atos mostraram o seu intento.

Nossa Constituição leva a sério este intento. Segundo o Artigo 239: "Nenhum cidadão que já tenha ocupado o cargo de chefe do Executivo poderá ser presidente ou vice-presidente. Quem violar esta lei ou propuser sua reforma, bem como quem apoiar direta ou indiretamente tal violação, cessará imediatamente de desempenhar suas funções e estará impossibilitado de ocupar qualquer cargo público por um período de dez anos."

Observe-se que o artigo fala em intento e também diz "imediatamente" - ou "no mesmo instante", ou "sem necessidade de abertura de processo", ou de "impeachment".

Continuísmo - a tendência dos chefes de Estado de estenderem seu governo indefinidamente - tem sido a característica fundamental da tradição autoritária latino-americana. O dispositivo da Constituição que prevê uma sanção instantânea pode parecer draconiano, mas todo democrata latino-americano sabe a ameaça para nossas frágeis democracias que o continuísmo representa.

Na América Latina, os chefes de Estado mostraram-se frequentemente acima da lei. A sanção instantânea da lei suprema impediu com sucesso a possibilidade de um novo continuísmo hondurenho. A Suprema Corte e o ministro da Justiça ordenaram a prisão de Zelaya, pois ele desobedeceu a várias ordens do tribunal, obrigando-o a obedecer à Constituição. Foi preso e levado para a Costa Rica. Por quê? O Congresso precisava de tempo para reunir-se e tirá-lo da presidência.

Com ele no país, isto teria sido impossível. A decisão foi tomada por 123 (dos 128) membros do Congresso presentes naquele dia.

Não acreditem no mito do golpe. Os militares hondurenhos agiram inteiramente dentro da Constituição. Eles nada ganharam, senão o respeito da nação por seus atos.

Estou extremamente orgulhoso de meus compatriotas. Finalmente, decidimos nos levantar e nos tornar um país de leis, e não de homens. A partir deste momento, aqui em Honduras, ninguém estará acima da lei.

*Octavio Sánchez é advogado e ex-assessor do governo hondurenho

01 Julho, 2009

Lula manda e o PT obedece.

Sarney é carne podre. Não manda mais em nada. Se ainda permanece na cadeira de presidente do Senado é porque sua renúncia ou mesmo seu afastamento é antes um perigo para o Governo Lula do que uma tentativa de mostrar alguma decência.

Essa história de Sarney está velha e o fim será, como sempre e infelizmente, a impunidade. O novo fato político é muito melhor. Lula, da África, onde participa de uma reunião de assassinos ditadores do continente, mandou o PT do senado, que ontem defendia a permanência de Sarney, e hoje em reuniões pela manhã e à tarde pediu seu afastamento, voltar atrás e reafirmar seu apoio e solidariedade ao senador José Sarney.

As indas e vindas do PT nesse caso provam que o partido está dividido entre o clamor da opinião pública que exige providências e o temor do que pode vir acontecer ao governo caso Sarney renuncie ou se afaste. A opinião que conta para o PT, no entanto, é a de Lula. Lula manda e o PT obedece. Sempre foi assim. Sempre será assim. Esse papo de que no PT se respeita as instâncias democráticas do partido é mais uma balela que os petistas disfarçados de jornalistas fizeram prosperar na opinião pública. Vê-se, no Caso Sarney, quem manda no partido.

Em 2005, no auge da Crise do Mensalão, quandos os graúdos do PT foram pegos com a mão na grana corrompendo partidos e parlamentares, restou a Lula a desculpa cínica, logo copiada por outros crápulas, de que não sabia de nada. Ora, meus ingênuos, um homem que da África manda uma ordem que desautoriza a decisão de uma bancada de 14 senadores e é obedecido, um homem como esse não só sabe de tudo como manda em tudo. Fui sutil? Espero que não.

Não é de hoje que o PT está na mão do PMDB mais podre, mais velhaco, mais corrupto. Alguém que se fia em Sarney e Renan dá bem a medida de sua moral, não acham? Continuaremos a bancar, com os nossos impostos, essas ilegalidades.

O Poder Legislativo no Brasil se entregou. Podia ter dado um exemplo em 2005, mas fez uma composição com os corvos de sempre. De lá para cá, só foi se apequenando, caindo num abismo tão profundo que o chão parece nunca chegar.

Lula, como sempre, fia-se na sua grande popularidade para fazer o povo aceitar o inaceitável. O pior é que ele consegue.

30 Junho, 2009

Isso não é uma metáfora é um escândalo.


A foto acima foi registrada pelo repórter fotográfico Lula Marques no final de dezembro de 2007. Eu sei que a imagem causa náusea, mas serve de emblema para uma reveladora declaração da líder do PT no senado, a senadora Ideli Salvati.

Na época da foto escrevi o seguinte:

Não é um beijo de confraternização. É a consumação da promiscuidade entre o PT e o PMDB. Esse não é o beijo da traição. É o ósculo dos ímpios! Dos proxenetas da res publica.

Chega! Preciso de um um saco para vomitar!

O PT que na oposição condenava a todos, muitas vezes sem provas, quando virou governo passou a exigir, para com os aliados pegos em crimes, o benefício da dúvida.

Leiam, abaixo, o que ela acabou de declarar na tribuna do senado.

“O que está vindo a público é coisa que tem muito tempo, não é nada recente, é muito antigo. E tudo tem muitas mãos, tem a participação de muitos (…). Eu vou defender na bancada que nenhuma medida pode ser adotada contra qualquer um dos senadores” disse, referindo-se a reunião da bancada do PT que deve ocorrer na noite de hoje para tratar do assunto. (…) Ninguém pode ser acusado, afastado, antes que as investigações sejam concluídas. Senão não vamos resolver nada. Continuaremos lendo essas matérias [de denúncias] até que o Senado se inviabilize”.

Convenhamos, depois de um beijo desses, ela não poderia ter dito outra coisa, não é?

CQC: quando a piada não tem graça

Uma das coisas mais difíceis para quem vive de humor é não atravessar o tênue limite que separa a galhofa do constrangimento. Constranger uma pessoa para fazer os outros rirem é um risco que todo humorista corre, mas quando isso acontece, acho importante que o comediante reflita e peça desculpas.

O programa CQC, que vai ao ar às segundas-feiras na Rede Bandeirantes de Televisão, foi uma das mais importantes novidades em humor que surgiu nos últimos anos na TV brasileira. Piadas inteligentes, perguntas desconcertantes e com boa dose de picardia, são fórmulas conhecidas, mas que os repórteres do programa sabem utilizar com talento e propriedade.

Um dos mais se não o mais talentoso desses repórteres, o Danilo Gentili, na semana passada, foi destaque de uma elogiosa matéria em Veja e com merecimento, na minha opinião.

Contudo, na edição do programa de ontem, dia 29 de junho, Danilo Gentili, ao cobrir a manifestação de estudantes da USP contra a greve, no afã de fazer rir, protagonizou uma das cenas mais tristes do programa. Entrevistando um estudante da USP que havia sido agredido por outros estudantes favoráveis à greve do SINTUSP e por sindicalistas, fez uma "brincadeira" de extremo mau gosto. Combinou com um grupo de estudantes - que se não estava entre os agressores do entrevistado, certamente os apoiava - que durante a entrevista eles deveriam, em bando, aproximar-se do estudante para ver se, palavras do repórter, o aluno que fora agredido sairia correndo. A intenção foi infeliz, infatil e cruel. O aluno não correu, para frustração do repórter, mas ficou assustado sim, quando o grupo se aproximou, cumprindo o script acertado com o Danilo Gentili. A cena não teve graça nenhuma. Danilo Gentili, sempre espirituoso, inteligente e de raciocínio rápido; dessa vez foi cruel, inconseqüente e sem graça.

A matéria, no meu entender, também foi covarde. O adjetivo é forte, reconheço, mas apropriado. Fazer piadas com os estudantes de verdade da USP, aqueles que estudam, que não são vagabundos militantes, é fácil. Corajoso seria fazer piadas com o outro lado. E o jornalista não fez. Pelo contrário. Tratou-os até com alguma deferência. O repórter chegou a afirmar que o SINTUSP estava em greve por melhorias na USP o que, com efeito, é uma péssima piada. Onde a irreverência do repórter com aquela estudantada que detesta aula, livros e está na universidade apenas para ser militante? Onde a irreverência, tão eficiente que ele mostra com os parlamentares no congresso, com os sindicalistas do SINTUSP?

Danilo Gentili é talentoso e de longe o melhor repórter do programa, mas hoje, com sua "armação" cruel, infantil e covarde, atravessou o limite que separa a galhofa do constrangimento. Uma pena.

23 Junho, 2009

Professor também não precisa de diploma.

Semana passada o STF, por 8 votos a 1, derrubou a obrigatoriedade do diploma de jornalista para profissionais que trabalham nos meios de comunicação. A decisão, segundo o relator, o ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo, garante um direito fundamental na democracia: a liberdade de expressão.

As corporações de ofício do século XXI reagiram dizendo ser um absurdo não se exigir de um jornalista o diploma de curso superior em comunicação. Afirmam também que a decisão desprestigia as faculdades de comunicação. O curioso é que a maioria das pessoas que torceram o nariz para a decisão do STF acha que um diploma universitário é absolutamente dispensável para ser presidente da república.

Concordo com a decisão. Vou mais longe. Acho que a função de professor, por exemplo, também dispensa um diploma universitário específico na área que se deseja lecionar. Um professor precisa ter, antes de tudo, o conhecimento da disciplina e, claro, habilidade de transmitir esse saber aos seus alunos. Eu, por exemplo, fui vítima desse cartório. Em 2005, fui aprovado na décima-quinta colocação para professor de filosofia na rede pública do Distrito Federal. Minha graduação é em história e por isso, mesmo sendo aprovado num concurso público, o GDF não permitiu a minha posse. Não me deixaram, por exemplo, provar que eu poderia dar aula para os alunos do ensino médio. Simplesmente me pediram o diploma do curso de filosofia. Como não tinha, não pude assumir.

Se um advogado, sociólogo, pedagogo provar que tem conhecimento em história e deseja ser professor dessa disciplina e mostra habilidade para o magistério, por que não permitir que essa pessoa dê aulas de história? Só porque ela não tem diploma? Ora. Isso é cartório.

Diploma não dá atestado de competência a ninguém. Quantos professores existem, devidamente diplomados, que são notadamente uns ignorantes? Que mal sabem juntar lé com cré. Que nunca leram, na faculdade, um livro inteiro. Um professor diplomado incompetente é mais nefasto para o futuro de um país que um professor reconhecidamente competente, mas que não tem o "diproma".

A carência na educação é tanta que hoje mesmo os professores incompetentes têm emprego. Certa vez uma aluna me perguntou qual a profissão que teria emprego garantido. Respondi que a de professor. Porque para um professor, mesmo que ele seja uma anta, haverá quem o coloque numa sala de aula, desde que ele tenha diploma, é claro.



17 Junho, 2009

Se eles estivessem do nosso lado...



Diálogos impertinentes 4*

O Sr. Z estava aplicando uma avaliação de recuperação quando a secretária, a Sra E, entrou na sala e, discretamente, disse-lhe:

- Z., tem uma mãe lá embaixo, muito brava com você. Ela alega que em sua prova de recuperação foram cobrados conteúdos que você disse que não seriam cobrados. É bom ir lá.

Como quem atende a uma ordem aborrecida, o Sr Z dirigiu-se até a coordenação e encontrou uma senhora com um semblante carregado, cheia de razões e pronta para pegar o Sr Z pelo pé.

- Tudo bem, professor? Disse ela com a satisfação de quem está preste a dar um golpe certeiro.

- Tudo bem. Qual o problema? Disse o Sr. Z com sua objetividade característica.

- Alguns alunos terminaram sua prova há pouco e eles afirmam que havia conteúdos diferentes daqueles pré-definidos pelo senhor. O que o senhor me diz?

- A senhora poderia especificar quais seriam esses conteúdos?

- Não! Mas os alunos garantem que havia. – A mãe, com o livro na mão aberto na página do índice, chama um aluno, e pergunta:

- Meu amor, o que caiu na prova que não estava nos conteúdos pré-definidos?

- A Era Napoleônica. Não tinha esse conteúdo na Internet. - Respondeu o aluno com convicção.

Com afirmação tão categórica, a zelosa mãe olha para o Sr. Z com olhar triunfal, como se dissesse: “peguei o senhor!”.

- Vamos conferir o conteúdo disponível na Internet? Sugeriu o professor.

Depois de alguns instantes, apareceu na tela do computador os conteúdos que seriam cobrados na prova. O Sr. Z, então, chamou a mãe para conferir. Tudo estava lá, bem explicado, bem mastigado, inclusive a Era Napoleônica. A mãe, sem graça, ficou em silêncio. O Sr Z quebrou o gelo, dizendo:

- Não é incomum o aluno confundir alguns conteúdos, principalmente quando ele está estudando para várias provas de recuperação. Não se preocupe.

A mãe deixou a sala sem se despedir. O senhor Z, então, pensou: “Se alguns pais pegassem no pé dos filhos como pegam no pé dos professores, talvez nossa educação fosse melhor”


*TEXTO PUBLICADO EM 07 DE JUNHO DE 2008.


14 Junho, 2009

O ALUB erra até quando acerta

É impressionante como os responsáveis pelo site do ALUB não se incomodam com a qualidade dos comentários dos itens das provas do PAS e do Vestibular da Unb. Fico estarrecido com o nível de parvoíce e de ignorância que os comentários revelam. Não fosse pela estupidez pura e simples, a pobreza literária de quem redige os comentários cobriria de ingnomínia qualquer estudante de terceiro ano medianamente alfabetizado.

O curioso nos comentários do ALUB é que mesmo quando eles acertam o gabarito, o comentário que justifica o item, geralmente, é dissociado do que foi cobrado do candidato. Assim, eles cravam que um item x está certo ou errado e o justificam de forma alienada.

Na prova do vestibular da Unb aplicada ontem, por exemplo, vários itens poderiam servir de prova do que falei acima, mas destaco um, o 102, do Caderno Grande Otelo. Vejam:

102 C - O AI 5 foi um dos maiores processos de ruptura do processo de fortalecimento das manifestações artísticas brasileiras.

O item exige do aluno que reconheça as diferentes fases pelo qual passou o regime autoritário implantado no Brasil em 1964. Aliás, o AI 5 foi um ponto de inflexão importante, tornando o regime escancaradamente repressivo. O item está correto, mas o comentário do AULB é de uma pobreza de estilo e de conteúdo que são inadmissíveis num curso de preparação para concursos e vestibulares.

Já no item 29, numa questão de filosofia medieval, o comentário do ALUB é lacônico e estúpido! Aliás, não é a primeira vez que o ALUB erra feio comentando uma questão de filosofia. Ano passado, na prova do PAS da primeira etapa, o curso não reconheceu a famosa frase do sofista Protágoras de Abdera - O homem é a medida de todas as coisas - e marcou como correto um item que afirmava que os sofistas eram defensores de valores absolutos. Mesmo um aluno abaixo do medíocre reconheceria essa frase e marcaria o item como errado.

No item 29 do Caderno Grande Otelo, o gabarito e o comentário do ALUB, respectivamete, foram:

29 C Nunca houve fusão entre Filosofia e Teologia (religião).


Prestem atenção ao advérbio nunca. Em história, tanto ele quanto o seu oposto, sempre, são armadilhas para pegar incautos. Supõe-se que os incautos sejam os alunos menos preparados, mas ao que parece os incautos são aqueles que comentam os itens para o ALUB.

Vejamos o que diz Bertrand Russel, filósofo britânico que na década de 50 do século passado, ganhou o Nobel de literatura por uma obra sobre a História da Filosofia. Em seu livro A História do Pensamento Ocidental, ele afirma na páginas 190 e 192, o seguinte:

“Nos tempos grecos-romanos, como hoje, a filosofia, na essência, independia da religião. (...) Nesse aspecto, o período entre a Queda de Roma e o fim da Idade Média difere tanto da era precedente como da seguinte. No Ocidente, a filosofia se tornou uma atividade que floresceu sob o patrocínio e a direção da Igreja. (...) Durante a Idade Média, a filosofia permanece estreitamente ligada à Igreja.”

Se os professores de filosofia que comentaram esse item soubessem da disciplina que lecionam, diriam mais ou menos o seguinte:

Se houve uma época em que a filosofia se subordinou a teologia, essa época foi a o período medieval. Santo Agostinho e Tomás de Aquino, dois dos maiores nomes da filosofia medieval, em que pese suas divergências filosóficas, afinal, o primeiro influenciou a Alta Idade Média e o segundo, a Baixa Idade Média, fizeram suas reflexões no âmbito geral da religião cristã. A filosofia de ambos servia, antes de tudo, para fins teológicos, por isso a afirmação que eles separavam sua filosofia da religião está incorreta, falsa.

O comentário que está no site do curso não revela apenas a pobreza de conteúdo de quem comentou, mas a sua oligofrenia.


Seria interessante que professores de outras disciplinas se debruçassem sobre os comentários do ALUB para constatarem o engodo desses comentários. Em literaratura, por exemplo, eu vi alguns.

Confira aqui os comentários do ALUB e aqui a prova de ontem.